Fugindo um pouco da temática predominante do blog, segue artigo de Ivan Oliveira. Aos entendedores, meia palavra basta. Publicado no portal Folha-UOL, Tendência/Debates.
O físico austríaco Guido Beck (1903-1988), pesquisador do Centro
Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF) de 1951 até a sua morte, dizia
que "querer a tecnologia mas não querer a ciência é como querer o leite
mas não querer a vaca".
Ao longo da história, há vários exemplos. Vejamos alguns poucos:
1) O escocês James Maxwell previu, com suas equações, em 1873, a
existência e a propagação de ondas eletromagnéticas. As ondas de rádio
foram produzidas pela primeira vez por Heinrich Hertz, em 1888, dando
partida às comunicações por rádio;
2) Einstein, em 1905, descobriu a sua famosa fórmula: e=mc2. A energia
nuclear só passou a ser explorada a partir da década de 1940. Mais uma
dele: em 1916, publicou a relatividade geral, que substituiu a teoria da
gravitação de Isaac Newton. Hoje, o GPS emprega a relatividade para
funcionar corretamente;
3) A mecânica quântica, formulada no primeiro quarto do século 20, é a
base de toda a ciência dos materiais: semicondutores (matéria-prima dos
chips de computadores), metais, isolantes, materiais magnéticos e
nanotecnologia. Só nos EUA, estima-se que cerca de 40% do PIB decorre de
inovações diretamente ligadas às aplicações da mecânica quântica,
utilizada para produzir, por exemplo, computadores, eletrodomésticos e
carros;
4) O inglês Tim Berners-Lee, ao solucionar um problema de transferência
de arquivos de dados científicos entre computadores no maior laboratório
de física básica do mundo, o CERN, no início dos anos 1990, inventou a
internet;
5) Cristais líquidos (usados em monitores de TV, computadores, tablets)
foram descobertos em 1888 pelo botânico Friedrich Reinitzer, quando
estudava, na Universidade de Praga, propriedades do... colesterol!
A relação entre ciência, tecnologia e inovação segue uma ordem de causa e
efeito que não pode ser invertida. Não se retira uma vaca de um copo de
leite. É um grave equívoco pensar que se pode separar a atividade
científica básica das soluções tecnológicas. A tecnologia é um "efeito
colateral" da ciência.
Apenas no Instituto Tecnológico de Massachusetts, MIT, o número de
patentes obtidas em 2011 foi de 160, contra 572 pedidos do Brasil
inteiro no mesmo ano --em geral, nem todos os pedidos resultam em
patentes concedidas.
Ao leigo, pode dar a impressão de que os cientistas do MIT passam o dia pensando em novas invenções.
Essa noção desaparece quando verificamos que, entre os 27 prêmios Nobel
de Física que passaram pelo MIT (em um total de 63 daquela instituição),
encontram-se nomes como o de Richard Feynman (1965), Murray Gell-Mann
(1969) e Steven Weinberg (1979), todos dedicados à compreensão de
fenômenos físicos fundamentais, sem qualquer viés aplicativo imediato.
A fórmula para a geração de tecnologia e inovação é simples. Coloque em
um mesmo lugar cientistas, engenheiros e estudantes, em bom número,
pesquisando, juntos, fenômenos básicos da natureza, com laboratórios,
oficinas e bibliotecas bem equipados.
Não existe outra forma. Não é rápido, não é barato. Não gera dividendos
políticos imediatos, não dá resultados em um par de mandatos. Tem de
haver consistência no financiamento, persistência na aplicação da
fórmula e paciência. No Brasil, ciência básica é produzida nas
universidades e nas unidades de pesquisa de vários ministérios.
Soluções mágicas, impostas por manobras burocráticas, podem matar a
nossa vaca, que tem saúde frágil. E, como se sabe, vaca morta não dá
leite.
IVAN OLIVEIRA, 50, doutor em física pela Universidade de Oxford, é
pesquisador titular e coordenador da pós-graduação no Centro Brasileiro
de Pesquisas Físicas