quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Estudo investiga atraso da estação chuvosa na Amazônia

Por Karina Toledo, de Washington
Agência FAPESP – A transição da estação seca para a estação chuvosa no sul da Amazônia costuma ocorrer entre os meses de setembro e outubro. Atrasos nesse processo causam fortes impactos na agricultura local, na geração de energia e no funcionamento dos grandes rios da região, dos quais a população depende até mesmo para se locomover.
As fortes secas que afetaram a Amazônia nos anos de 2005 e 2010, bem como as enchentes de 2009 e 2014, indicam uma crescente variabilidade no início do período das chuvas que os modelos de previsão do clima ainda não são capazes de detectar com sensibilidade.
Compreender melhor os fatores que influenciam essa transição e, dessa forma, aperfeiçoar os modelos matemáticos existentes é o objetivo de um projeto apoiado pela FAPESP e coordenado pelo pesquisador José Antônio Marengo Orsini, do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), em parceria com a cientista Rong Fu, da University of Texas, nos Estados Unidos.
"Observamos um aumento de quase um mês na duração do período de seca, quando comparado aos dados dos anos 1970. Os modelos matemáticos existentes indicam que esse atraso no início das chuvas tende a aumentar. Queremos investigar se há influência da pluma de poluição da região metropolitana de Manaus nesse processo", contou Marengo.
A pesquisa está sendo realizada no âmbito da campanha científica Green Ocean Amazon (GOAmazon), que reúne pesquisadores de diversas universidades e institutos brasileiros e norte-americanos e conta com financiamento do Departamento de Energia dos Estados Unidos (DoE, na sigla em inglês), da FAPESP e da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (Fapeam), entre outros parceiros (leia mais em: http://agencia.fapesp.br/forcatarefa_investiga_se_oceano_verde_da_amazonia_esta_em_risco/18691/).
Resultados preliminares foram apresentados na terça-feira (28/10), em Washington (Estados Unidos), durante o simpósio FAPESP-U.S. Collaborative Research on the Amazon.
"Evidências da literatura sugerem que a transição do período de seca para o de chuvas é influenciada por fatores externos, como anomalias na temperatura da superfície do oceano, transporte de umidade, entre outros. Mas o gatilho para essa transição está sem dúvida dentro da floresta", disse Fu.
Os pesquisadores estão trabalhando com dois diferentes modelos, um americano, chamado Community Earth System Model (Cesm), e o Modelo Brasileiro do Sistema Terrestre (Besm, na sigla em inglês). Mas, segundo Marengo, eles ainda não são capazes de representar com precisão os impactos da extensão da seca no sul da Amazônia.
Existem parâmetros que precisam ser melhorados, como a inclusão de aerossóis e a representação das nuvens baixas. A ideia é usar toda a gama de dados gerada pelos diversos experimentos do GOAmazon para alimentar esses modelos e aperfeiçoá-los", contou Marengo.
De acordo com o pesquisador, a região sul da Amazônia é a que sofre mais com o atraso do início das chuvas, pois no norte não há um período de seca definido. Além do impacto sobre as populações, os cientistas temem que o prolongamento do período de seca possa causar danos permanentes à floresta.
"O ser humano se adapta, mas a floresta pode começar a secar e ficar mais vulnerável a queimadas. Quando começar a chover pode ser tarde demais. Somente com o aperfeiçoamento dos modelos poderemos ter mais certeza sobre os possíveis impactos", disse Marengo.
Modelando nuvens
Outro projeto realizado no âmbito do GOAmazon que tem como objetivo o aperfeiçoamento de modelos de previsão climática foi apresentado no simpósio em Washington por Tercio Ambrizzi, do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas (IAG) da USP e por seu colega Carlos Roberto Mechoso, da University of California em Los Angeles (Ucla).
"Nosso objetivo é investigar como os aerossóis produzidos pela região de Manaus influenciam o processo de formação de nuvens na Amazônia. Nós comparamos as simulações que os diversos modelos são capazes de fazer com dados reais que estão sendo produzidos nos diversos sítios de pesquisa do GOAmazon", disse Ambrizzi.
Depois de aperfeiçoados, esses modelos poderão ser incorporados em programas que desenham cenários de mudança climática, aumentando o grau de confiabilidade das projeções, afirmou o pesquisador.
Ao todo, o grupo trabalha com cinco diferentes modelos matemáticos, entre eles um de previsão do clima global, um de previsão regional e um voltado especificamente à formação de nuvens. Há ainda um programa capaz de mapear a trajetória das nuvens, desde o desenvolvimento inicial, a maturação e o decaimento, na forma de chuva, com auxílio de imagens de satélite.
Por meio do chamado modelo lagrangiano de difusão de partículas, o grupo de Ambrizzi investiga detalhadamente de onde vem a umidade existente na região da Amazônia e para onde ela se dirige. Os primeiros resultados foram divulgados em artigo publicado na revista Hydrology and Earth System Sciences.
"É possível ver claramente pela trajetória das partículas que as regiões do Atlântico tropical norte e sul são fontes de umidade para a Amazônia. Essas partículas caminham até a região Sudeste, onde se transformam em chuva", disse Ambrizzi.
Sítios de pesquisa
Desde o início de 2014, uma gama enorme de dados sobre composição química de aerossóis e gases atmosféricos, microfísica de nuvens e parâmetros meteorológicos está sendo coletada nos diversos sítios de pesquisa instalados na região amazônica para o projeto GOAmazon.
O chamado sítio T3, localizado em Manacapuru, a 100 km de Manaus, é onde está instalada a estrutura do Atmospheric Radiation Measurement (ARM) Facility – um conjunto móvel de equipamentos terrestres e aéreos desenvolvido para estudos climáticos e pertencente ao DoE. O local recebe a pluma de Manaus após percorrer um longo caminho e sofrer interações com partículas emitidas pela floresta e com a radiação solar.
O T2 está situado no município de Iranduba, situado na margem do Rio Negro oposta à cidade de Manaus, e recebe a pluma de poluição assim que ela é emitida. Lá foi instalado com apoio da FAPESP um contêiner com equipamentos semelhantes aos existentes em Manacapuru.
A infraestrutura para coleta de dados do GOAmazon conta ainda com duas torres instaladas dentro da cidade de Manaus, na sede do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), batizada de sítio T1, e um conjunto de torres ao norte de Manaus – conhecido como T0 –, que inclui a Torre Alta de Observação da Amazônia (Atto), com 320 metros de altura. O T0 está situado no lado oposto ao percorrido pela pluma e representa, portanto, as condições da atmosfera amazônica sem a influência da poluição.
"Estamos analisando os dados das estações antes da pluma de Manaus e depois da pluma de Manaus. A primeira constatação é que, sem conhecer a situação da química atmosférica antes da pluma, no T0, fica quase impossível interpretar os dados coletados no T3, onde está a infraestrutura do ARM", ressaltou Paulo Artaxo, professor do Instituto de Física (IF) da USP e idealizador do projeto GOAmazon ao lado de Scot Martin, da Harvard University, nos Estados Unidos.
A comparação entre os dados coletados nos diversos sítios, afirmou Artaxo, revela haver forte influência da pluma de Manaus na composição química dos aerossóis e dos gases traço observados em Manacapuru.
"Qual é o impacto e suas consequências ainda vamos analisar. Já vimos, em relação ao ozônio, que há um aumento de até quatro vezes na concentração quando se comparam o T0 e o T3. Passa de 10 partes por milhão (ppm) para 40 ppm após a pluma, chegando a níveis que podem ser danosos às plantas. Vimos também forte efeito no balanço de radiação atmosférica, alterando a quantidade de radiação disponível para as plantas realizarem fotossíntese", disse.

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

UFRN: Projeto visa reflorestar áreas degradadas da caatinga no Seridó

Plantar 50 mil mudas de vegetação nativa em matas ciliares e em outras áreas degradadas da caatinga no município de Parelhas. Esse é o objetivo inicial do “Projeto Florescer: replantar vidas na caatinga”, que será lançado na próxima sexta-feira, 31, às 18h, na praça central da cidade. A iniciativa, no entanto, é mais ampla e visa a se estender para outros municípios da região do Seridó.

O projeto é promovido pela Unidade Acadêmica Especializada em Ciências Agrárias (UAECIA), integrante da Escola Agrícola de Jundiaí (EAJ) da UFRN, além de órgãos públicos e entidades da sociedade civil organizada. Nessa fase inicial, em Parelhas, participam as secretarias de educação e agricultura do município, Prefeitura, EMATER, Guarda-Mirim e os clubes de jipeiros e de ciclistas da cidade.

A professora Magda Maria Guilhermino, uma das organizadoras do projeto, explica que a sua realização vai ser iniciada já no dia seguinte ao lançamento. Na ocasião, será feita uma expedição para a coleta de sementes em uma área de vegetação caatinga preservada em Parelhas. A perspectiva é que o reflorestamento no município seja feito ao longo de cinco anos.

Além da coleta, o projeto também vai se dedicar à confecção das mudas – que serão feitas com material reciclado –, ao plantio e monitoramento das áreas a serem reflorestadas. Isso será realizado de acordo com a assessoria técnica dos cursos da Unidade Agrícola Especializada: Engenharia Florestal, Agronomia e Zootecnia.

A ideia é que o projeto conte com o apoio de outras Prefeituras e possa se estender para mais municípios da região. Para isso, foram convidados e devem estar presentes ao lançamento prefeitos de Santana do Seridó, Tenente Laurentino, Acari e Cruzeta, além de outros da região do Mato Grande.

Fonte: AGECOM-UFRN

VI Workshop de Mudanças Climáticas e Recursos Hídricos do Estado de Pernambuco

Nos próximos dias 30 e 31 de outubro, o Instituto de Tecnologia de Pernambuco (ITEP-PE) estará realizando o 6º encontro de trabalhos sobre Mudanças Climáticas e Recursos Hídricos. Haverá participação do Programa de Pós-Graduação em Ciências Climáticas (PPGCC), da UFRN, com as palestras:

1. Divulgação do Programa de Pós-Graduação em Ciências Climáticas, pelo Prof. Dr. Paulo Sergio Lucio– UFRN

2. Balanço Hídrico em Bacias Hidrográficas do Semiárido Brasileiro usando dados de Sensoriamento Remoto, pelo Prof. Dr. Bergson Guedes Bezerra

Abaixo segue o cartaz, seguido do link para o evento.






 



terça-feira, 28 de outubro de 2014

Modelo matemático estima a produção de cana sob diferentes condições climáticas

Por Elton Alisson
Agência FAPESP – Os modelos de estimativa de produtividade agrícola utilizados hoje não conseguiram prever o rendimento da cana-de-açúcar na safra dos canaviais paulistas este ano em razão de uma das piores estiagens já registradas no Sudeste nas últimas décadas.
“Nem o mais pessimista dos cenários de condições climáticas projetados pelos modelos matemáticos chegou perto do que aconteceu na safra da cana-de-açúcar de São Paulo este ano”, disse Edgar Gomes Ferreira de Beauclair, professor da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo (Esalq-USP), à Agência FAPESP.
“As projeções climáticas para a safra da cana-de-açúcar no estado para este ano indicavam que haveria uma redução da disponibilidade hídrica para a cultura agrícola de cerca de 10% em relação a 2013. Tivemos, contudo, uma queda de mais de 50% de disponibilidade hídrica, dando origem ao pior cenário climático para a cana-de-açúcar cultivada em São Paulo observado nos últimos anos, com muito calor e pouca umidade”, avaliou.
No entanto, um modelo matemático de estimativa do potencial rendimento da cana-de-açúcar baseado em parâmetros climáticos – desenvolvido pelo pesquisador em colaboração com colegas do Centro de Tecnologia Canavieira (CTC) – conseguiu estimar a produtividade final da planta cultivada em São Paulo na safra atual com índice de acerto de mais de 90%.
Criado no âmbito de um projeto realizado com apoio da FAPESP, o modelo foi apresentado por Beauclair no 2nd Brazilian BioEnergy Science and Technology Conference (BBEST), que ocorreu de 20 a 24 de outubro em Campos do Jordão (SP).
“A previsão da produtividade final da cana-de-açúcar para a safra de São Paulo este ano era de 65 toneladas por hectare, em função do déficit hídrico”, disse Beauclair. “O modelo matemático que desenvolvemos conseguiu chegar muito perto dessa estimativa, apontando que a produtividade da planta no estado este ano seria entre 60 e 65 toneladas por hectare”, contou.
De acordo com o professor, o modelo começou a ser desenvolvido no início da década de 1980, quando era pesquisador do Centro de Tecnologia da Copersucar – atual CTC.
O objetivo, na época, era desenvolver um modelo de otimização de safra da cana-de-açúcar. A versão inicial do projeto, entretanto, esbarrava na falta de confiança dos cenários climáticos projetados.
“O modelo matemático desenvolvido na época teve o mérito de ser um dos pioneiros no Brasil, mas carecia de projeções mais confiáveis. Por isso, começamos a buscar um modelo mais crível de previsão para a formação de cenários de produção de cana”, afirmou.
Por meio da pesquisa de doutorado de Maximiliano Salles Scarpari, feita entre 2004 e 2006 e orientada por Beauclair, os pesquisadores chegaram a um modelo de previsão da maturação da cana-de-açúcar da espécie Saccharum spp. com até três meses de antecedência.
Nos últimos anos, com o projeto “Contribuição de produção de bioenergia pela América Latina, Caribe e África ao projeto GSB-Lacaf-Cana-I”, o modelo matemático foi aprimorado e passou a ser capaz de prever a produtividade de um canavial por hectare durante uma determinada safra.
Para fazer essas estimativas, o modelo se baseia em dados da produtividade do canavial na safra anterior e em indicadores de radiação solar e de déficit hídrico para a safra atual, obtidos a partir de previsões meteorológicas e de balanço hidrológico feitas pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) para diferentes regiões do país.
“Quanto maior a radiação solar e menor o déficit hídrico durante uma safra, maior será a produtividade da cana-de-açúcar plantada”, disse Beauclair.
“Com base nesses dois indicadores – que são cruciais para a cana –, o modelo consegue prever a produtividade de um canavial tanto em pequena como em larga escala”, afirmou.
Testes de projeções
De acordo com Beauclair, o modelo foi testado para estimar a produtividade de um canavial com 2 mil hectares na região de Pirassununga, no interior de São Paulo, durante as safras dos últimos cinco anos.
No teste, foram levantados dados de maturação, idade do canavial, solo, variedades de cana utilizada, florescimento da planta e aplicação de maturadores, além do tipo de manejo adotado.
“Essas variáveis são relativamente fáceis de ser avaliadas e, combinadas com dados climáticos, podem dar uma boa perspectiva do que vai acontecer”, disse Beauclair.
“Os modelos existentes hoje solicitam muitas variáveis, como a taxa de fotossíntese de um canavial, que é difícil de um produtor obter para realizar o planejamento de uma lavoura. Nosso modelo utiliza variáveis mais simples”, comparou.
Com técnicas de pesquisa de programação linear – em que as alternativas de aumento da produção em diferentes cenários climáticos são comparadas e testadas por recursos matemáticos e computacionais –, o modelo possibilitou planejar o manejo da lavoura para atingir os objetivos de produção, mantendo os mesmos parâmetros de variedade de cana e maturadores utilizados na safra anterior.
“Uma premissa do modelo desenvolvido é que, quanto mais dados do sistema de produção de uma área analisada e quanto menor a alteração dos parâmetros de uma safra para a outra, maior será a precisão da estimativa.”
“Considerando que os parâmetros de produção dos canaviais de São Paulo seguidos na safra atual não mudarão na próxima, é possível prever a produtividade da cana no estado com relativa precisão”, afirmou.
O modelo está sendo utilizado agora no âmbito do projeto Bioenergy Contribution of Latin America & Caribbean and Africa to the Global Sustainable Bioenergy Project (Lacaf-Cana), apoiado pela FAPESP no âmbito do Programa de Pesquisa em Bioenergia (BIOEN), para realizar a previsão de produção de cana-de-açúcar em Moçambique e Colômbia.
Iniciado em 2013, o projeto tem o objetivo de analisar as possibilidades de produção de etanol de cana-de-açúcar nesses dois países e também na Guatemala e na África do Sul.
“As condições climáticas e de solo de Moçambique e da Colômbia são muito diferentes das do Brasil”, avaliou Beauclair.
“Em Moçambique, o regime hídrico e climático são semelhantes ao do Cerrado brasileiro; o país precisará de irrigação para cultivar cana. Já a Colômbia tem uma outra condição hídrica, com situações de encharcamento, muitas vezes”, comparou.
De acordo com o pesquisador, o modelo faz projeções de diferentes cenários climáticos, sendo um primeiro mais otimista, o segundo intermediário e o terceiro mais pessimista.
A ideia, segundo ele, é que o modelo seja disponibilizado publicamente e possa ser adaptado a outras plantas usadas na produção de biocombustíveis, que não somente a cana-de-açúcar.
“Em princípio, o modelo pode ser adaptado para fazer estimativas de produção de qualquer cultura de biomassa”, afirmou.
O artigo Physiological model to estimate the maturity of sugarcane (doi: 10.1590/S0103-90162009000500006), de Scarpari e Beauclair, pode ser lido na revista Scientia Agricola em www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-90162009000500006.

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Energias renováveis conquistam espaço

Por Heitor Shimizu, de Munique
Agência FAPESP – Pesquisadores da Alemanha e do Brasil se reuniram na FAPESP Week Munich, no dia 17 de outubro, em um painel para apresentar e debater desafios, soluções e oportunidades em energias renováveis e sustentáveis.
“Vivemos um momento de grande crescimento no mundo como um todo, tanto populacional como econômico, mas não observamos um crescimento proporcional no uso de energias renováveis. A fonte energética que mais cresce é o carvão, o que diz muito sobre a situação que vivemos atualmente”, disse Thomas Hamacher, professor na Universidade Técnica de Munique, moderador do painel e um dos palestrantes.
“Nos últimos anos, as emissões derivadas de combustíveis fósseis têm aumentado mais do que achávamos que fosse ocorrer. Se olharmos para os cenários produzidos pelo IPCC [Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas] no início da década de 1990, vemos que estamos hoje no lado do pior cenário estimado na época”, disse Hamacher.
“Energia é um assunto muito importante no cenário político atual e esses são pontos com os quais temos que lidar. Temos de encontrar soluções globalmente e não individualmente. Não temos uma resposta ainda, mas certamente um caminho é trabalhar mais com energias renováveis”, afirmou.
Hamacher destacou a importância para a Alemanha da questão da chamada “energiewende” (“transição energética”), que visa à substituição do carvão e de derivados do petróleo por fontes renováveis.
No Brasil, país considerado exemplar no uso de energias renováveis – em especial por conta da geração de eletricidade por hidrelétricas e pelo uso do etanol como combustível em veículos –, a pesquisa na área também tem sido intensa.
Um exemplo está no Programa FAPESP de Pesquisa em Bioenergia (BIOEN), que foi apresentado no painel no Deutsches Museum, em Munique, por um dos membros de sua coordenação, Marie-Anne van Sluys, professora no Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo.
Lançado em 2008, o BIOEN tem como objetivo estimular e articular atividades de pesquisa e desenvolvimento, utilizando laboratórios acadêmicos e industriais para promover o avanço do conhecimento e sua aplicação em áreas relacionadas à produção de bioenergia no Brasil.
“Levando em conta que o programa se encontra em um cenário muito amplo, ele foi criado com cinco divisões, bem diferentes entre elas”, disse Van Sluys. As divisões do BIOEN estão voltadas para pesquisas em: biomassa para bioenergia; fabricação de biocombustíveis; biorrefinarias e alcoolquímica; aplicações do etanol para motores automotivos; e impactos socioeconômicos e ambientais e uso da terra.
“O BIOEN está focado tanto no conhecimento básico como na geração de novas tecnologias. A participação tem sido muito expressiva. O programa já teve 136 auxílios a pesquisa, envolvendo mais de 400 pesquisadores no Brasil e colaboradores em 15 países, entre os quais a Alemanha”, disse Van Sluys.
Van Sluys destacou que o BIOEN estimulou a criação do Centro Paulista de Pesquisa em Bioenergia, do Programa Integrado de Pós-Graduação em Bioenergia (que reúne as três universidades estaduais paulistas) e a realização de parcerias em pesquisa com empresas e instituições de diversos países.
O BIOEN também deu origem a 15 projetos de pesquisa apoiados por meio do Programa FAPESP Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas (PIPE) e a 12 projetos no Programa de Apoio à Pesquisa em Parceria para Inovação Tecnológica (PITE).
Van Sluys falou sobre a importância de fazer com que a cana-de-açúcar se torne um componente ainda mais importante na matriz energética brasileira. Por conta disso, pesquisadores ligados ao BIOEN têm estudado alternativas que permitam aumentar a eficiência da cana na produção de energia.
O grupo liderado por Van Sluys na USP, por exemplo, integra um consórcio internacional de pesquisadores que trabalha no sequenciamento e análise do genoma da cana-de-açúcar e que publicou recentemente um conjunto amplo e diverso de sequências do genoma da planta.
Energia fotovoltaica
Uma alternativa considerada importante na Alemanha para a “energiewende” é o uso da energia solar. Roland Zink, professor no Instituto de Tecnologia de Deggendorf, falou sobre a pesquisa realizada por seu grupo a respeito do uso de energia fotovoltaica na Baviera.
“A instalação de painéis fotovoltaicos, subsidiada pelo governo desde o ano 2000, experimenta um forte crescimento na Alemanha. Muitos sistemas têm sido instalados em telhados e temos visto a implantação de usinas de larga escala para geração de eletricidade”, disse Zink.
“Áreas rurais, como no sudeste da Baviera, têm percebido o potencial das energias renováveis como uma oportunidade de desenvolvimento econômico”, afirmou o pesquisador.
Segundo ele, essa espécie de corrida pelo uso da energia fotovoltaica tem levado a região a experimentar problemas tanto técnicos como sociais. Um problema técnico importante é a instalação não planejada dos sistemas, envolvendo fatores como a escolha de locais menos favoráveis, seja espacial ou economicamente.
O principal problema social, contou Zink, diz respeito às estações de grande porte, que reduzem as áreas de cultivo, já escassas na região, preocupando os agricultores.
O painel sobre energia na FAPESP Week Munich também contou com apresentações dos professores Jürgen Karl (Universidade de Erlangen-Nuremberg), Gilberto De Martino Jannuzzi (Faculdade de Engenharia Mecânica da Universidade Estadual de Campinas) e Denis Coury (Escola de Engenharia de São Carlos da Universidade de São Paulo).
Karl falou sobre combustíveis renováveis e alternativas de armazenamento. Segundo ele, o uso de energias renováveis tem crescido na Alemanha, respondendo atualmente por mais de 30% da produção de energia no país e substituindo com sucesso as fontes nucleares e o gás natural importado principalmente da Rússia.
“À medida que o uso das fontes renováveis aumentar, precisaremos de capacidades de armazenamento que permitam, por exemplo, manter a energia solar ou do vento não apenas por algumas horas, mas por dias e semanas”, disse.
Jannuzzi, que também é membro da coordenação do Programa FAPESP de Pesquisa sobre Mudanças Climáticas Globais (PFPMCG), falou sobre a flexibilização do sistema energético brasileiro, com o uso de novas tecnologias e aumento da eficiência energética.
Segundo Jannuzzi, a demanda energética no Brasil tem crescido mais rapidamente do que o Produto Interno Bruto: 4,5% de 2012 a 2013, contra 2,3% de aumento no PIB. O setor energético, que historicamente é dependente da geração por hidrelétricas, tem mudado nos últimos anos, com o crescimento de outras fontes, como o maior uso de termoelétricas.
Coury, que coordena o Projeto Temático "Desenvolvimentos tecnológicos para a proteção, análise, supervisão e automação dos sistemas elétricos do futuro", apoiado pela FAPESP, falou sobre pesquisas conduzidas por seu grupo com “smart grids”.
“Smart grids” são redes de distribuição automatizadas, baseadas em inteligência computacional e tecnologias da informação. Com uma comunicação interativa entre as partes, elas permitem otimizar o uso de energia elétrica.
Nas “smart grids”, uma máquina de lavar, por exemplo, pode ser programada para funcionar apenas quando receber a informação de que naquele momento a demanda por energia no sistema caiu abaixo de um determinado valor. Ou a energia na casa do consumidor pode ter seu preço aumentado ou diminuído conforme os picos de uso.

terça-feira, 21 de outubro de 2014

Argonne researchers create more accurate model for greenhouse gases from peatlands

Scientists at the U.S. Department of Energy’s Argonne National Laboratory have created a new model to more accurately describe the greenhouse gases likely to be released from Arctic peatlands as they warm. Their findings, based on modeling how oxygen filters through soil, suggest that previous models probably underestimated methane emissions and overrepresented carbon dioxide emissions from these regions.
Peatlands, common in the Arctic, are wetlands filled with dead and decaying organic matter. They are the result of millions of years of plants dying and breaking down into rich soil, so they contain a massive amount of carbon.
“Peatlands cover about four percent of all land, but they hold 20 percent of all carbon stored on land,” said Argonne scientist Zhaosheng Fan, who led the study.
Cold temperatures keep the carbon locked in the soil. As the ground warms, however, microbes come to life and begin to decompose all that organic matter, which releases carbon into the atmosphere.
Unfortunately, the extreme northern regions of the world are where warming has accelerated the most quickly—and it’s expected to pick up in the future. Scientists are concerned that Arctic warming could spiral quickly into a self-reinforcing cycle that dumps an enormous amount of carbon into the atmosphere.
Scientists create complex models to estimate how this might unfold, combining data taken on the ground with varying emissions scenarios to forecast climate change far into the future.
One area of particular interest is which form of carbon will be released. Microbes can create either CO2 or methane, and each gas has different effects on the atmosphere. CO2 is a long-lived greenhouse gas, staying in the atmosphere for up to a century or more. Methane delivers a powerful punch—its impact is about 20 times greater than CO2—but filters out of the atmosphere in about 12 years. Accurately predicting how much of each gas will be released, therefore, is important.
Down in the ground, the conditions that microbes find themselves in will affect what form of carbon they release. If there’s a lot of oxygen and water available, microbes will only produce CO2. If there isn’t enough oxygen, they will produce methane and CO2.
Up until now, researchers had been using a simple model that assumed water was the primary divider; soil above the water table would produce microbes that made CO2, and microbes below would produce methane.
“But experiments had been showing that there could be significant limits on oxygen availability above the water table, and this would affect what form of carbon microbes release,” Fan said.
The size and characteristics of soil particles matter. If the oxygen gets trapped in air bubbles and consumed by other microbes or can’t filter down through soil, soil microbes will produce methane even if they’re above the water table.
“So we set out to make a model that would take these findings into account,” Fan said.
The team used experimental data from peatland taken near Fairbanks, Alaska and plugged it into their model. The results showed their new model was much more accurate and suggested that more methane is produced and proportionally less CO2—than predicted by older water table-based models.
“Revising this calculation will substantially affect current greenhouse gas production models in the Arctic,” Fan said.
Next, Fan said, they are looking into adding other soil characteristics, such as nutrients like nitrogen, into the model to see how they might affect microbe output.

By Louise Lerner  for ANL Press

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

USP: Mudanças climáticas

Do USP Online
O Núcleo de Pesquisa em Políticas e Regulação de Emissões de Carbono (NUPPREC) do Instituto de Energia e Ambiente (IEE) da USP e a Faculdade de Direito (FD) da USP, realizam o Seminário Climate Change: Brazil and United States Comparative Vulnerabilities, Regulation and Polices.
O evento acontece dia 22 de outubro, das 9 às 12 horas, no auditório do primeiro andar da FD, Largo São Francisco, 95.
O objetivo é discutir os seguintes tópicos: (i) o papel do Brasil e dos Estados Unidos nas negociações climáticas; (ii) iniciativas de governança climática no âmbito sul-americano e a relação do Brasil com elas; (iii) aspectos das legislações nacionais e subnacionais de ambos os países e como aperfeiçoá-las, sobretudo no tocante às vulnerabilidades decorrentes das mudanças climáticas.
As inscrições devem ser feitas exclusivamente por email comunicacao@iee.usp.br, enviando nome/e-mail/cargo/instituição.
O seminário será totalmente em inglês, sem tradução. A programação pode ser acessada na página do evento.
Mais informações: email omunicacao@iee.usp.br, site http://www.usp.br/iee/?q=en/node/499
http://www.eventos.usp.br/?events=seminario-discute-mudancas-climaticas-no-brasil-e-nos-

Amazon deforestation picking up pace, satellite data reveals

Data indicates 190% rise in land clearance in August and September compared with same period last year

Tree in deforested area in middle of the Amazon jungle
A tree in a deforested area in the middle of the Amazon jungle. Photograph: Raphael Alves/AFP/Getty Images
The deforestation of the Brazilian Amazon has accelerated rapidly in the past two months, underscoring the shortcomings of the government’s environmental policies.
Satellite data indicates a 190% surge in land clearance in August and September compared with the same period last year as loggers and farmers exploit loopholes in regulations that are designed to protect the world’s largest forest.
Figures released by Imazon, a Brazilian nonprofit research organisation, show that 402 square kilometres – more than six times the area of the island of Manhattan – was cleared in September.
The government has postponed the release of official figures until after next Sunday’s presidential election, in which incumbent Dilma Rousseff of the Workers’ party faces a strong challenge from Aécio Neves, a pro-business candidate who has the endorsement of Marina Silva, the popular former environment minister .
But the official numbers are expected to confirm a reversal that started last year, when deforestation rose by 29% after eight years of progress in slowing the rate of tree clearance.
Among the reasons for the setback are a shift in government priorities. Under Rousseff, the government has put a lower priority on the environment and built alliances with powerful agribusiness groups. It has weakened the Forest Code and pushed ahead with dam construction in the Amazon.
The environment ministry has tried to step up monitoring operations and campaigns to catch major violators, but farmers and loggers have also become more sophisticated by clearing areas of less than 25 hectares – below the range that can be detected by the Deter satellite, which the government had been using until recently.
More precise images should be available with a new satellite that has come into operation, but it is thought that better pictures will be likely to show even sharper deterioration.
Covert GPS surveillance of timber trucks by Amazon campaigners has shown how loggers evade the authorities. Much of the timber is laundered and sold to unwitting buyers in the UK, US, Europe and China, Greenpeace revealed this year.
Despite the worsening situation in the Amazon – and São Paulo’s most severe drought since records began – the environment has played little part in the debates between the two presidential candidates.
Alarmed by these trends of environmental degradation and political complacency, Imazon, the Environmental Research Institute of Amazonia and Friends of the Earth have come together to urge the next administration to make diversity and sustainability official priorities for the Amazon.
“It’s time to realize that current investments in the Amazon do not promote development, and deforestation is impeding development. Based on this, you need to design and implement a regional development policy based on diversity of the territory,” said Roberto Smeraldi, director of Friends of the Earth.

Source: The Guardian

Crise Climática: Causada por desmatamento, seca em SP foi prevista há décadas


O Sudeste, o Centro-Oeste, o Norte e o Nordeste registraram recordes de temperatura nos últimos dias com a bolha de calor estacionada sobre estas regiões. Ela impede a chegada da umidade e consequentemente da chuva. Mas esse é apenas um dos reflexos de um cenário catastrófico já previsto há mais de 20 anos, que hoje, não se trata apenas de uma previsão, mas sim das consequências do desmatamento.  O engenheiro agrônomo com doutorado em biogeoquímica planetária do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais Antônio Donato Nobre, autor de um estudo chamado Futuro Climático da Amazônia  - que deve ser publicado até o final do ano – afirma que a única forma de remediar a situação é adotar uma estratégia de guerra.



“Não quero ser radical, mas quando nós chegamos a esse ponto, nós precisamos ter um discurso de guerra”, diz comparando a ação dos governantes frente à crise financeira de 2008, quando foram investidos trilhões de dólares para salvar bancos privados da crise.  “É uma decisão que precisa ser tomada em 15 dias e não em 15 anos”.

O professor afirma que já vivemos dentro de um desastre, a exemplo do que ele vê todos os dias pela janela de seu apartamento em São José dos Campos, “vejo o céu do Saara, nós estamos aqui em um processo de desertificação, e eu torço para que esteja errado, para que eu esteja equivocado”.

 “Essa onda de destruição tem consequência, agora é a hora da consequência e nós vamos pagar o preço... mas não são mais os cientistas ou a sociedade que estão falando isso, agora é o clima que está falando.... abra a sua torneira e veja se a água está saindo. Esta demonstração faz com que eu não precise me preocupar em relação sobre se o que eu estou falando é verídico ou não”.

Nobre explica que a principal causa do que temos testemunhado no Brasil é efeito do fim das florestas do Sudeste e do desflorestamento em andamento na Amazônia, que diminuiu a umidade do ar. Isso  faz com que as massas de ar seco fiquem estacionadas, diminuindo ainda mais a umidade e impedindo as chuvas. A importância das florestas é tamanha, que um estudo do qual Nobre participou mostrou que a vegetação amazônica produz mais umidade que o volume de água diário do rio Amazonas, que é o maior do mundo. 
Constatações como essa tem feito com que ele defenda ações mais urgentes e radicais contra o desmatamento e em favor do reflorestamento, porque as consequências já estão sendo sentidas. 

“Quando a gente está dentro de um desastre, não podemos raciocinar com a lógica antiga... essa lógica de que ‘será que a Dilma vai concordar’, não funciona em um desastre. Quando você está em um esforço de guerra é regime de exceção, de calamidade pública... é minha posição pessoal, mas é porque não vejo outra saída”, diz. 
Menino tenta se refrescar no Parque Villa-Lobos, na zona oeste
Foto: Gabriela Biló / Futura Press
Ele cita o exemplo do cientista da NASA James  Hansen, um dos maiores nomes no monitoramento de temperatura, que  começou a realizar protestos dizendo que as pessoas soubessem o que ele sabe, estariam juntos com ele protestando. 

“Isto já estava previsto há 20 anos atrás, já estavam gritando na  Eco 92 no Rio de Janeiro para ajudar a humanidade. É grave a situação, é gravíssima, mas não só, não fizeram nada, como aceleraram o processo de destruição. Agora é o custo. Destrói a sua casa, e agora não mais onde morar”, afirma.

Sua maior crítica é contra setores que defendem o desmatamento em favor da agricultura, que impuseram mudanças como o novo Código Florestal, mas que não levaram em consideração os efeitos que o clima tem sobre a própria agricultura, que depende muito da previsibilidade do clima.
Ele diz que além da população, a agricultura sofrerá os impactos disso. “O que essas pessoas que falam em nome da agricultura fizeram foi dar um tiro no próprio pé”. “Porque mesmo com chuva, em um evento de 2004 no Rio Grande do Sul, faltou chuva em umas semanas no período em que a soja estava florescendo e teve mais de 60% de queda de produção

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